4º CAPÍTULO “ A Loucura Definitivamente Toma Conta de mim “
Corria o santo ano de 1998 e eu andava sempre ao fim de semana todo “vaidoso”

a passear os “cavalos” do meu “bichano”, um dia lá tive de o levar à 1ª Revisão na altura à “JagSport” na circunvalação, mais concretamente no Monte dos Burgos. Tinha decidido tirar o dia de férias, pois não queria deixar lá o carro, revolvi esperar toda a manhã e desta forma trazia o carro novamente comigo. “O bichano não devia nunca sair debaixo do meu olhar”, não sei se me faço entender!....
Lá estava eu á seca, quando para me entreter peguei num catálogo de apresentação da gama XJ8 / XK8 de 1998/1999, ainda hoje guardo o catálogo que foi o motivo da minha perdição quase a tocar a loucura. Começo a desfolhar o mesmo e nas últimas páginas deparo-me com a novidade do dia para mim, uma má novidade, ou melhor a novidade da minha próxima desgraça

. Afinal existia uma outra marca dentro da oferta da Jaguar, uma tal “ Daimler”

.....

fiquei ainda mais baralhado, mas não querendo dar parte fraca e aspecto de ignorante

, resolvi sair de fininho e indagar tudo o que era possível saber sobre esta questão. Vim cá fora e liguei por telemóvel para o Sr. José Ribeiro que tinha sido o chefe de oficina da “JagSport” até finais de 1997 pois com ele estava à vontade

. Ele lá vez o favor de me explicou que a Daimler tinha sido uma marca autónoma e em determinada altura adquirida pela Jaguar, sendo que a partir dessa altura a Jaguar passou a produzir alguns dos seus modelos topo de gama, tal como o XJ8 sob a marca “Daimler”, estes eram por norma modelos de extremo luxo e requinte. Fiquei desvairado e angustiado, afinal havia um Jaguar ainda mais aprimorado e luxuoso que se chamava “ Daimler”

.
Voltei para dentro da oficina e comecei a ver fotos deste modelo ou seja do Daimler XJ8, fiquei absolutamente e perdidamente apaixonado pelo carro

, tinha os cromados extras nos sítios certos, tinha a cor da madeira com aplicações nos locais exactos e tinha as mesas de piquenique que faziam toda a diferença e esplendor fase ao meu standard XJ8 Executive, era efectivamente um modelo onde imperava o extremo bom gosto e requinte nos acabamentos. A 1ª ideia decente que me veio á cabeça foi, este não é ” Executive”, mas sim “Exclusive”

, andei a remoer a cabeça durante os meses que se seguiram, não dormia, mal comia, e quando dava por mim estava a ver as fotos do Daimler no catálogo da Jaguar

. No inicio de Setembro já de tanto consumido pelo desejo tomei a atitude mais impulsiva e louca da minha existência, foi ter com o Sr. Graça, na altura dono da “JagSport”, representante para Portugal da Jaguar e disse-lhe quase a gaguejar

que queria comprar um “Daimler”, ele sorriu e foi me dizendo que não tinha nenhum para venda, pois este modelo tinha de ser pedido sobre encomenda, dado que não era um carro para qualquer um, logo teria que encomendar o carro, sinalizar o mesmo esperar cerca de 3 meses pela entrega. Como estávamos em meados de Setembro logo só tinha carro para o final do ano ou inicio de Janeiro de 1999, calhava bem que assim tinha tempo para ver como o ia pagar???....

Ao dia de hoje acho que a resposta que ele me deu é que me trouxe força para avançar, pois sempre gostei na vida de “missões quase que impossíveis”, só dei por mim a que responder:
“- Então vamos lá encomendar um”

, este inconsciente nem sabia no que me estava a meter.

O Homem nem queria querer no que estava a ouvir e foi buscar uma listagem enorme de extras possíveis para personalizar o carro. Começou por que perguntar se eu queria o modelo SWB ou LWB??...eu não sabia qual a diferença e ele lá me explicou que o modelo LWB era mais comprido no compartimento do banco de trás, pois era um carro que normalmente era conduzido por um “Chauffer”, ao que respondi:
- É mesmo esse, embora neste caso o “Chauffer” seja eu, era o que faltava dar uma fortuna por um carro e ainda por cima pagar a outro para ter o prazer de o conduzir”, estava louco mas não demente.

Relativamente ao motor fiquei-me por o normalmente aspirado, ou seja o V8 de 4 Lt, que já assim tinha uma “manada” de cavalos e era bem mais calmo pois para nervoso já chegava eu. Perguntei quantos já tinham vindo para Portugal, ao que me respondeu 2 para Lisboa, um normal (V8)e um Supercharged (V8 Super) e 1 Supercharged (V8 Super) para o Porto também para a Maia, o meu seria o 2º para o Norte. O banco BCP tinha também encomendado um destinado à Administração mas esse seria feito de encomenda pois era blindado com vidros à prova de bala, era destinado a transportar o Sr. Eng.º Jardim Gonçalves, (Na altura Presidente do Concelho de Administração do BCP), esse brinquedo vim a saber mais tarde, custou cerca de 40.000c (200.000€), já se sabe, quem pode, pode e quem não pode arreia, pois eu cá quase que arriei com a conta do meu e era bem mais pequena

.
Ficou então decidido que o meu Daimler teria as seguintes características gerias:
Modelo: XJ8 LWB
Motor: 4.0 V8 atmoférico de 300CV
Cor Exterior : Green Racing
Cor Interior: Ivory (Branco gelo) + aplicações num castanho escuro.
Banco traseiro de 3 lugares.
Tecto de Abrir
Caixa de 6 CD`s na mala
Telemóvel: Motorola Startac Tac incorporado
Jantes de liga Leve 17” modelo “Solar”
Suspensão activa electrónica (CAT`s)
Espelhos exteriores retrateis de ajuste eléctrico e anti encandeamento.
Bancos eléctricos com memórias
Bancos Aquecidos
Cruse control + comandos de rádio e telefone no volante
Volante de pele+madeira
Coluna de direcção de Ajuste Eléctrico
Moca da Caixa de automática personalizada com o símbolo “D”
Encostos de cabeça personalizados com o “D” bordado no encosto
Cortina de cortesia no óculo traseiro
5ª Roda (suplente) de tamanho e jante igual às restantes 4
Para brisas de frente aquecido.
Etc.
Total: A bonita conta de 24.000c ou seja 120.000€

, se ainda hoje é muito dinheiro para pagar um carro em 1998 era uma autêntica loucura. Resultado endividei-me até aos dentes

, mas estes não os coloquei no prego, fiquei com eles para poder comer, e demorei cerca de 4 anos para pagar o carro na totalidade, mas comprei o carro. Valei-me não ter mais encargos ser solteiro, sem filhos, morar ainda com os pais e tudo o que ganhava era para pagar o empréstimo do carro, no fundo trabalhava para o carro. Quando foi levantar o carro e depois de passar o cheque do mesmo custou-me tanto que jurei a mim mesmo nunca mais na vida voltaria a comprar um carro deste valor por muitas possibilidades que tenha, é um atentado moral, social e á carteira, foi um momento único de loucura em prol de um carro que também é único. Um ano mais tarde li numa revista inglesa que assinava a “ Jaguar Driver´s Club “ que um, Daimler 4.0 LWB verde com o interior Ivory igual ao meu, tinha sido comprado pela própria Rainha de Inglaterra para, passo a citar, “for the motoring private of the Queen”,

é claro qye ela não demorou 4 anos a paga-lo, serviu-me de consolo saber que tinha tido o bom gosto de comprado um carro digno da aristocracia britânica

. Bem para concluir que já vai muito longa a narrativa e vocês ainda adormecem a ler, o carro chegou a Portugal a 28/12/1998 e foi-me entregue em 06/01/1999, foi a minha última prenda de anos deste género, que foi entregue atrasada de 1 dia por causa das matriculas do carro que fiz questão de serem feitas à mão no J.Mota em V.N.G, só para as matriculas foram mais 20c (100€ ), mas eu já estava por tudo. Em Agosto de 2000 casei-me, pelo que a vida começou a ter outras prioridades e estes devaneios desmedidos não podiam ser mais repetidos, tiveram que ser mais regrados e cautelosos.
Com este meus amigos digo-vos como me disse o pai do meu colega em Lisboa à 20 anos atrás, este vai comigo para a cova,é uma maneira de dizer, pois agora que vou ser pai de um rapaz em finais de Junho, (já tenho duas meninas pelo que a democracia cá em casa estava seriamente comprometida na razão de 3 para 1), espero que ele esteja á altura de poder vir a herdar este “bichano” para seu legado, da minha parte tudo o farei para o manter até lá.
A este “bichano” que eu com carrinho e sátira chamo de “ A jóia da coroa da garagem” fez este ano em Janeiro 10 anos e ainda só tem 44.000Km no contador. Já temos juntos 10 décadas de existência e muitas mais vamos ter pela frente, mas acreditem meus amigos que ainda ao dia de hoje quando com ele saio da garagem

para dar uma volta com a família sinto o mesmo nervoso miudinho

a percorrer as costas como no 1º dia que o foi buscar, e só consigo acalmar-me quando o devolvo a segurança da garagem.

É um sonho tornado realidade, mas que em 10 anos já passados ainda me faz sentir pouco à-vontade para o viver como realidade. Embora já tendo 10 anos de idade ainda faz rodar todas as cabeças por onde passa, movidas pela curiosidade e o espanto de nuca terem visto um carro igual.

Nota: no centro de inspecções a onde vou com o “Bichano” tive de dar um curso de utilização do carro para a inspecção ao inspector

, e apenas um está autorizado a fazer as inspecções aos meus “bichanos”.
Regras básicas tais como:
Nunca entrar no carro com canetas ou esferográficas sem tampa.

Não pisar nas embaladeiras à entrada e saída do carro

Ter as mãos lavadas antes de entrar no carro e roupa minimamente limpa

Nunca deixar o carro muito tempo em “D” com o carro travado, para tal colocar a caixa em “N” ou “P”

Tirar e colocar a sonda de CO2 nas panelas do carro com cuidado para não bater no carro

Ligar os 12V para leitura do CO2 directamente á bateria do carro, para tal o carro já vai com a bateria acessível ao abrir a mala.

Enfim foi um circo, mas resultou o inspector ao fim de algum tempo lá se convenceu que não estava a fazer inspecção a um carro qualquer. E todos os anos é o mesmo inspector, se lá não estiver volto noutro dia.
Coincidência: “Um ano mais tarde li numa revista inglesa que passei a assinar a “ Jaguar Driver´s Club “ que um, Daimler 4.0 LWB verde com o interior Ivory igual ao meu, tinha sido comprado pela própria Rainha de Inglaterra para, passo a citar, “ for the motoring private of the Queen”
Mal possa envio outro novo Capítulo.
Um abraço,
Jagu / LJ