3º CAPÍTULO “ O Retomar do Sonho “
Estávamos nos últimos dias no ano de 1997, mais concretamente no mês de Dezembro e por motivos profissionais tive de me deslocar a Bruxelas, lá foi eu de avião. A missão era tentar fechar um negócio relacionado com o fornecimento de quadros eléctricos para os contentores de retransmissão de sinal de telemóveis, o fornecedor que ganha-se o contracto teria um fornecimento garantido em exclusividade durante todo o ano de 1998, a empresa necessitava de ganhar este assunto para garantir uma cadência de trabalho regular para 19998 logo toda a minha atenção e empenho estavam concentrados neste assunto

. Devido à marcação de última hora apenas tinha arranjado Hotel nas imediações de Bruxelas e todas as manhãs tinha de pedir um táxi na recepção para me levar ao centro da cidade, às instalações do nosso potencial cliente para reuniões de negociação, sendo que a do 1º dia seria de carácter técnico, no 2º dia seria a reunião comercial e no 3º dia seria decidido a adjudicação do fornecimento, onde todos os potenciais fornecedores estariam presentes. No 1º dia quando ia na viagem da táxi já no centro da cidade paramos nuns semáforos e fiquei com a impressão que algo ou alguém estava a olhar para mim, senti-me observado propriamente dito

. Olhei para o lado e vi um stand da Jaguar, na montra um belíssimo XJ8 verde metalizado que parecia “piscar-me os faróis “

como quem diz, “Olha bem para mim”

, olhei fixamente e fiquei de queixo caído

, o táxi entretanto arrancou, pelo caminho que restava e enquanto esperava na sala de reuniões pelo cliente, fiz uma promessa a mim mesmo, se ganha-se o contracto de fornecimento, comprava aquele carro, seria o meu “amuleto da sorte” para este negócio. No 1º dia tudo correu bem e passamos á fase seguinte da discussão comercial, entretanto na ida para o Hotel pedi ao motorista do táxi para parar no stand, queria ver o “bichano” de perto e ver quanto “doía a conta” ::)caso a minha promessa se fosse realizar, “uma pipa de massa”, fiquei assustado, pois ainda tinha de dispor de verba para legalizar o carro quando chega-se a Portugal. Mal cheguei ao hotel telefonei ao nosso habitual despachante oficial para que me informa-se quanto custava legalizar o “bichano”, mais uma má notícia, outra “pipa de massa”

. Passei então toda a noite acordado de máquina de calcular na mão a fazer contas, a ver se tinha “ ar que chegue “ para realizar aquela loucura, por fim lá adormeci face ao cansaço. No dia seguinte pela manhã enquanto desfazia a barba cheguei à conclusão que se compra-se o carro tinha inclusive de utilizar o cartão de crédito para colocar gasolina

na vinda até Portugal para desta forma adiar o pagamento desta despesa, pois pagando o carro apenas ficava c/ dinheiro quase ao certo para a legalização do mesmo, e desta forma ficava sem tostão no bolso, pelo menos até receber o ordenado de Dezembro, ou seja até 03 de Janeiro. Neste 2º dia lá foi eu pelo mesmo caminho para a reunião comercial, lembro-me de ter umas olheiras enormes e cara evidente de quem nada tinha dormido. Quando passei no stand lá estava ele a” rir-se” para mim como que a “desafiar-me” para o tirar dali

, fitando o meu olhar com os seus 4 magníficos faróis que ostentava de ambos os lados na sua imponente e carismática grelha frontal, isto estava a ficar complicado, estava-se ali a criar uma relação de grande empatia, coisa séria pensei eu.

No fim da manhã do 2º dia “Bingo”, tínhamos transposto mais uma barreira, pelo que podíamos vir a ser o fornecedor escolhido, mas a certeza só no dia seguinte saberia, pois tinham sido seleccionados 5 possíveis fornecedores, pelo sim ou pelo não na ida para o hotel lá parei novamente no stand, e desta vez fiz questão de me sentar dentro do “bichano”, o seu interior era muito bonito através da conjugação de 2 cores, uma bege claro e uma outra castanho mais escuro. Coloquei as mãos no volante e senti um aperto no peito e uma ideia na cabeça que me martelava sem parar dizendo “este foi feito para ti….”.

É escusado dizer que mais uma vez não dormi nessa noite, contei todas as horas e finalmente lá se fez dia de novo. Outra vez o mesmo ritual e mais uma vez passar em frente do stand, sabendo que dentro de 2 a 3 horas já sabia o que me esperava, a mim e aquele “atrevido” XJ8.

Eram 11.00H e finalmente foi anunciado o fornecedor escolhido, tremia que nem varas verdes até ouvir o nome da minha empresa, a sensação foi um enorme peso que se transferiu da minha cabeça para o meu bolso, não sabia definir se tinha tido sorte ou azar, agora não havia nada a fazer. Eu sempre foi um homem de palavra que honra as calças que veste, este tinha sido um dos principais ensinamentos de meu pai, logo só havia um caminho possível, assinar o contracto de fornecimento com o cliente e sair direitinho em direcção ao stand da Jaguar, assim foi. Tive de ficar mais 5 dias em Bruxelas

para que o dinheiro fosse transferido para a conta do stand e para que toda a papelada esteve-se tratada de forma a poder trazer comigo o carro, e desta forma aproveitei para tirar uma semana de férias, mas todos os dias lá ia ao stand a ver o meu novo “ bichano”. Quando tudo ficou pronto lá vim eu rumo a casa, a alegria de viver tinha voltado, estava pobre no bolso mas rico de espírito e de auto estima. Quando cá cheguei pedi logo ao despachante para legalizar o carro e este ficou pronto a circular com matricula nacional e como não poderia deixar de se no dia 05 de Janeiro de 1998, aquele dia especial em que eu oferecia uma prenda especial a mim mesmo.
Tive este “bichano” sempre comigo até Janeiro de 2007 que pelos motivos que nos próximos capítulos vão ficar a saber o vendi. O carro tinha cerca de 38.000Km e ainda cheirava a novo, que o diga quem teve a sorte de o comprar, o nosso amigo e parceiro “Black Cat”. Neste momento este “bichano” rola algures na capital, em Lisboa. Na altura que me decidi a vender tinha várias pessoas interessadas no carro, pois estava como novo e sé com 38.000Km no contador, optei pelo Jorge Machado pois quando ele veio ver o carro senti que o desejava de igual forma como eu o desejei 9 anos antes, e que só com ele é que o “bichano” continuaria a ser bem tratado como merecia.

Coincidência: “Para lá foi de avião comercial em classe económica, para cá vim de 1ª classe Executivo em avião particular, modelo XJ8 3.2 modelo Executive, novinho em folha ”
